quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

12 canções

01
LOVE WILL TEAR US APART
by Joy Division




2009

Assim que ela disse aquilo nenhum de nós queria acreditar. A Jinx já estava na banda há cerca de dois anos e há cerca de dois anos que as coisas não podiam estar melhores. E há cerca de dois anos que eu estava, finalmente, apaixonado.
Quando os outros, por fim, nos deixaram a sós, a mim e à Jinx, peguei-lhe nas mãos e encostei-as ao meu coração. Ela olhou profundamente para mim e sorriu. E, nesse momento, quis dizer-lhe tudo aquilo que nunca tive coragem de lhe dizer.
Ela, apercebendo-se da aflição do meu olhar, afastou-se e murmurou:
— Nós nunca nos amámos verdadeiramente, pois não, Flash?
Flash. Em dois anos esta era a quinta vez, prá aí, que ela me tratava por Flash. E nas raras vezes que ela me tratara por Flash era sempre para reafirmar assuntos muito sérios que não tinham qualquer volta a dar. E este era mais um deles.
Aproximei-me dela sem saber o que lhe dizer. É claro que eu a tinha amado verdadeiramente. E era claro que ainda a amava. Mas, para Jinx, o amor era algo terrivelmente sério. Havia que vivê-lo intensamente, sem paragens, e ela sentia-se sem forças para o fazer. Agora, passado um ano, compreendi-a perfeitamente. Jinx tinha partido para nunca mais voltar. Tinha abandonado o grupo e tinha-se abandonado a ela própria a um destino de encarceramento. Não a perdoei na altura. Mas agora, de regresso a esta cidade que nos viu crescer, não consigo é perdoar-me a mim próprio.
Jinx não tinha fugido de nós. Ela simplesmente tinha fugido da nossa piedade, da nossa incompreensão para com a sua doença. E não teríamos mesmo. Depois não quisemos continuar. Não fazia sentido continuar o projecto sem aquele personagem que tanta falta nos fazia. E assim como aconteceu com os Joy Division, após a morte de Ian Curtis, também nós perdemos essa identidade e ganhámos uma nova ordem.   


02
HEY BOY, HEY GIRL
by Chemical Brothers




2007

Àquela hora da noite, as coisas ainda estavam calmas. Caía uma pequena neblina ligeiramente fria por sobre as nossas cabeças. Olhei para Rafael que fumava um cigarro e tinha o olhar preso numa miúda de cabelos pretos e compridos e que estava encostada a uma parte da porta do Frágil.
Rafael olhou para mim e segredou:
— Uma miúda daquelas é que eu gostava de ter na nossa banda. 
Olhei de nova para a miúda. Tinha uma pele muito branca. Os olhos eram verde água e tinha um piercing a sair-lhe da boca.
— Pois… — murmurei.
— Pois, o quê, pá?
— O que tu queres é uma gaja para te fazer uns broches nos intervalos dos ensaios, pá.
— Não sejas parvo, Flash.
— Pois… e ainda por cima com um piercing daqueles, não é? Até dava um ganda jeitão, não era?
Mas Rafael já não me estava a ouvir, pois dirigia-se apressadamente para a miúda dos cabelos pretos. E então percebi aquela atitude desesperada do meu amigo, pois que eu mesmo também não tinha uma gaja para me fazer uns broches nos intervalos dos ensaios.
E então pensei em coisas que não devia ter pensado. Parvoíces que não me levariam a lado nenhum. Mas a verdade é que Rafael estava certo numa coisa: precisávamos mesmo de alguém que desse voz à nossa banda, e uma miúda até que poderia ser giro. Agora tinha dúvidas era se aquela miúda era mesmo quem precisávamos.
Quando cheguei ao pé deles já Rafael estava a entabular uma conversa qualquer sobre uns gajos que tinham criado uma banda e precisavam de uma miúda para lhe dar voz. Não percebi se era de nós que falava, mas também isso teve pouca importância, porque logo a seguir o meu espírito foi alucinantemente atordoado quando a porta do Frágil se abriu e deixou passar, não só o pulsar estereofónico que se fazia sentir lá dentro, como aquela que depois viria a ser a miúda da minha vida. Isto soa piroso, eu sei, mas foi assim mesmo que as coisas aconteceram.


ROADS
by Portishead
           



2007

A Jinx não era loira nem morena. Os pais eram de Cabo Verde, mas o tom chocolate da sua pele vinha de uma avó brasileira que à muito deixara de existir.
— O que fazias no Frágil? — Perguntei-lhe ao fim de um bocado.
Estávamos no bar Cena de Copos e íamos já no nosso terceiro shot de B-52’s e eu sentia-me verdadeiramente excitado por estar ali, ao pé dela, sentindo-lhe o calor dos lábios na minha orelha cada vez que ela queria dizer alguma coisa.
— Estava à procura do meu namorado.
— Não!? — E não queria mesmo acreditar.
— Bem… — Corrigiu ela, — é mais… ex-namorado.
Depois fomos para casa do Rafael. Ele e a miúda dos cabelos pretos compridos, que, afinal, se chamava Rute, foram para o quarto. Eu e a Jinx ficámos na sala, atentos a um disco dos Goldfrapp, que rodava no gira-discos.
Depois aproximei-me mais dela e perguntei-lhe sem sequer me importar com o que os outros elementos da banda iriam pensar:
— Gostavas de cantar na nossa banda?
Ela sorriu, encostou depois os seus lábios ao meu ouvido e murmurou aquilo que verdadeiramente eu queria que ela dissesse mas tinha receio de me ouvir dizer:
— O que tu queres mesmo é foder comigo — e afastou-se.
A Jinx era assim. E mais tarde viria a ter mais provas desta sua necessidade de provocar os outros. Na altura não o sabia e, como tal, não soube o que dizer nem o que pensar.
Só o facto de saber que ela conseguia ler os meus pensamentos acerca dela, dava-me medo. Depois daquela noite, em que acabou e nem sequer dormimos juntos, não sabia se seguiríamos o mesmo caminho ou não. Mas a verdade é que ela acabou por se entregar de corpo e alma ao nosso projecto.


04    
LOSER
by Beck




2009

Antes de seguir para a casa do Rafael, que já não me lembrava muito bem onde ficava, fui parar ao British Bar no Cais do Sodré. Pedi uma Leffe fresquinha que o calor àquela hora apertava e muito e fiquei a saborear algumas historias ali vividas com a malta.
Vi o Leboni, com o seu cabelo escorrido e a pingar óleo a fumar aquelas suas cigarrilhas horrorosas a que ele tão energicamente defendia como o elixir da mente. Era parvo é o que era. Ao lado dele, estava o Jerónimo, em silêncio, abanando a cabeça em consentimento e numa frieza sem igual. Depois estava o Rafael, sempre inquieto, com as mãos numa batucada imprevisível, como se fossem o prolongamento de uma bateria. E era a Jinx olhando-me furtivamente cada vez que eu desviava os olhos dela, procurando para lá do bulício da rua inspiração para novas canções que, desconfortavelmente, tardavam a chegar. E ainda havia o Blacky, um preto tão escuro como o carvão, que mexia fantasticamente nos teclados e neles criava melodias arrepiantemente deliciosas, a bebericar a sua singela Super Bock já morta.
Quando sai para a rua tinha tomado uma decisão. Não iria, por muito que o exigissem, fazer nenhum discurso no enterro da Jinx. Eu tinha em memória as suas últimas palavras e era com elas que queria eternamente ficar. Decidi ligar ao Rafael e encontrar-me com ele algures no Chiado. Era melhor. À quase um ano que não punha os pés em Lisboa e o meu sentido de orientação estava um pouco… desorientado.
Foi com grande euforia que o vi chegar. Eu estava sentado num banco no Largo do Camões, acompanhado de um gajo espanhol que insistia, amigavelmente, trocar umas palavras comigo sobre politica. Ignorei-o, levantei-me e aproximei-me de Rafael. Trocámos um abraço de inegável amizade. Rafael era, sem dúvida, o meu grande amigo. Foi com ele que tudo aconteceu. Devíamos muito um ao outro.
Depois apareceu a Jinx. A coisa descontrolou-se um pouco para o meu lado. E quando soube que ela ia fazer aquilo por causa da doença fiquei destroçado e a viver subjugado a um inferno do qual não queria sair. E uma vez mais, o Rafael estava ali, segurando-me os braços para eu não cair em tentação.


05
THE PERFECT DRUG
by Nine Inch Nails




2008

Quando acordei senti uma necessidade enorme de lhe dizer que a amava. Mas o remorso tem destas coisas. A aflição de não ser natural incriminava-me. Levantei-me com a cabeça a latejar de cerveja e um cheiro estranho entranhado no corpo. E então vi: além de mim havia mais alguém na cama e não era a Jinx com toda a certeza. Havia uns fiapos de cabelos loiros a despontarem do lençol.
Aproximei-me e puxei o lençol para baixo. Para minha consolação ela não era feia, de todo. Tinha uns seios pequenos mas perfeitamente redondos e rijos, o ventre liso e uma púbis recortada num perfeito triângulo. Lembrei-me então da noite anterior: o Bairro Alto, a malta toda, incluindo a Rute e mais uns quantos amigos dela, a rodada imparável de copos depois do jantar no Agito, a Jinx a despedir-se alegando uma dor de cabeça terrível, e depois, mais tarde, aquela loira de olhos grandes, sozinha, abandonada ao balcão num decrépito bar qualquer que fomos a seguir, olhando-me e eu olhando-a, num jogo perigoso do cão e do gato. E depois aquilo.
E foi a partir desse momento que as coisas entre mim e a Jinx começaram a descontrolar. A campainha tocou e todo eu tremi. Eu sabia que a Jinx era a minha droga, e sabia também que ela nunca compreenderia se visse ali aquela mulher, um ser que nos era desconhecido, como se não existisse sequer, mas que apesar de tudo era fundamental para definir o nosso destino.
Quando me preparava para arranjar uma desculpa aceitável — se é que houvesse alguma — a porta da entrada abriu-se e a Jinx apareceu à porta do quarto com uma expressão incrédula estampada no rosto. Trazia uns calções super curtos a mostrar as bochechas do rabo e uma t-shirt tão pequena que se lhe via os seios a despontarem vontades impossíveis de ignorar.
A única coisa que ela murmurou antes de sair e bater a porta foi um “Flash…” arrastado, como se lançasse um suspiro de desalento. Ainda corri atrás dela, mas quando cheguei à rua e vi-me completamente sem roupas e os olhares vizinhos caindo em cima de mim como facas, não pude continuar.
“Flash…”, aquele nome ainda a reverberar na minha cabeça, quando a loira acordou. Era sempre assim que ela me tratava quando queria reafirmar um assunto muito sério e que não tinha qualquer volta a dar.


06
YOUNG FOLKS
by Peter Bjorn and John




2009

A expressão de Jinx transparecia uma serenidade quase ancestral, como se aquela pessoa tivesse vivido o suficiente para saber tudo sobre a vida. Baixei-me e beijei-lhe suavemente os lábios. Estavam frios. Queria dizer qualquer coisa, deveria mesmo, mas o quê? Pedir perdão?
Antes de me sentar e aguardar em silêncio os meus pecados, dirigi umas palavras de apreço a Rute, que apesar de amar o meu amigo Rafael, amava Jinx incondicionalmente. E literalmente. Rute já não tinha um piercing a sair-lhe da boca, mas sim dois, e mais uns quantos a decorarem- -lhe a cara toda. Foi difícil escolher um sítio para a beijar.
Éramos os únicos ali, em silêncio, a velar o corpo da nossa amiga. Só mais tarde, quando a noite principiava a despontar, é que apareceram o Leboni, o Jerónimo, o Blacky e os pais da Jinx. Vinham todos vestidos de negro e traziam uma expressão carregada de emoções.
Trocámos abraços e lágrimas e ficámos durante um bocado a remoer os silêncios do passado. Não nos víamos apenas há um ano e parecia que toda a gente tinha envelhecido prematuramente. Só o Rafael parecia manter um ar são, com o seu cabelo ruivo, da cor do fogo e quase sem rugas na cara.
Depois saímos à rua para desentorpecer as pernas e fumar um cigarro. Apenas os pais da Jinx ficaram recolhidos dentro da igreja amparados pelas lágrimas de Rute.
— Estão muito abatidos, os pais dela — disse eu, só para dizer qualquer coisa.
— É — murmurou o Jerónimo, que era de poucas palavras.
— E a tua vida com a Rute, Rafael — quis eu saber, — como vai?
— A Rute está despedaçada — disse ele, sem ressentimento, — mas vai tudo bem.
Olhei o resto da malta e naquele momento só desejei que o tempo voltasse para trás, que os Sexy Boys voltassem às profundezas da sua essência e fosse apenas uma banda de alguns gajos que faziam música instrumental porque simplesmente adoravam e não houvesse miúdas a complicar-nos a vida e a quererem mudar-nos o nome.
— E o que achaste da Jinx? — Perguntou-me o Rafael.
— Está linda — respondi.


07
KARMA KOMA
by Massive Attack




2007

Rafael e eu e o resto da banda olhávamos estarrecidos para Jinx. Ela, de olhos fechados, crispava as mãos em volta do microfone, enquanto os seus lábios faziam movimentos que pareciam libidinosos para quem estava do lado de fora, a assistir. Mas o que Jinx estava a fazer era a cantar.
Olhei para Rafael e o que pensámos a seguir foi que a nossa demanda tinha chegado ao fim. Ela era perfeita. Não só cantava bem, pelo menos, era o que todos nós achávamos, como tinha uma forma felina muito própria a segurar o microfone. E isso agradava-nos.
A partir desse dia todos nós sentimos que talvez poderíamos ir mais além. A Jinx foi incansável nos dias seguintes. Era das primeiras a chegar aos ensaios, sempre com uma alegria estampada no rosto, os olhos muito brilhantes quando cruzava os meus. Várias vezes acabávamos a noite a tomar uns copos ali para os lados de Santos e outras vezes acabávamos na minha cama, eu e a Jinx, saboreando o corpo um do outro.
Mas nem sempre era assim. Ou era eu que ficava super aborrecido com alguma coisa que acontecia de desagradável no ensaio e refugiava-me insolentemente num silêncio impenetrável; ou, por vezes, saia com outras pessoas a quem a Jinx não admirava nada e ficava dias e dias amuada comigo. Houve uma altura em que ela foi viver lá para a minha casa. Pensámos que se calhar era o que estávamos a precisar. Mas estávamos errados. Eu, pelo menos, estava. Tínhamos discussões repetidamente. Era insano viver assim.
A verdade é que desejávamo-nos acerrimamente, mas os meus desejos eram incontroláveis. Eu buscava outras mulheres, outros corpos com cheiros diferentes, enquanto Jinx apenas me queria inteiramente para ela. Ainda propus que ela saísse sozinha com outras pessoas, que tivesse sexo com outros homens, não me importava, o que eu queria era um pouco de espaço, mas na verdade, era ela que pouco a pouco se asfixiava na doença.
Nessas alturas eu queria era pensar que a culpa não era minha, mas quando a Jinx me encontrava com outras mulheres já nem “Flash…” pronunciava, era mais um desprezo silencioso aquilo que ela sentia por mim.


08
VIOLENTLY HAPPY
by Björk




2008

Era de madrugada e o comboio para o norte partia dali a quinze minutos. Primeiro tinha sido a Jinx quem se havia despedido de todos nós, beijando- -nos a todos sem qualquer ressentimento. Agora era eu. A Jinx tinha ido para o Alentejo, algures entre Serpa e Mértola, apascentar rebanhos como ela gostava de dizer. E eu também agora ia fugir.
Rafael deu-me um abraço longo e vigoroso como só aos amigos se dá. Depois despedi-me do Leboni, do Jerónimo e do Blacky. Não queria acreditar que tudo aquilo que havíamos imaginado para nós tinha terminado. Era um final inglório. Contudo eu não queria pensar assim. Levava na memória as nossas canções e com elas queria ficar eternamente agarrado. E Jinx, onde estaria ela?
E por estranho que possa parecer, à medida que o comboio se afastava de Santa Apolónia, o meu coração ia ficando cada vez mais calmo, cada vez mais descansado. A minha respiração passou a ser mais tranquila, como se o facto de estar a fugir daquilo tudo fosse realmente o que sempre deveria ter feito. Assustei-me por estar a pensar naquilo, porque na verdade, eu não os queria abandonar, queria simplesmente afastar-me, afastar-me de todas aquelas recordações por mais que isso me doesse.
Mas não era isso o que estava a acontecer. Eu estava a tentar esquecer e isso dava-me uma tranquilidade inimaginável. Fechei os olhos e, por momentos, vi-me de novo na noite em que o Rafael cumpria o seu quadragésimo primeiro aniversário. Nessa mesma noite tínhamos dado o nosso primeiro e único concerto. Tinha sido num clube recreativo de um bairro qualquer onde o Jerónimo era sócio e dava aulas Yoga duas vezes por semana.
Além de nós, estavam lá mais meia dúzia de gatos-pingados conhecidos do Jerónimo. E apesar de todo o nosso esforço em mantermos aquela pequeníssima turba unida, foi a Jinx quem sobressaiu naquele palco improvisado de madeira e poeira. E foi nessa mesma noite, quando bebíamos copos atrás de copos nas Primas no Bairro Alto e festejávamos loucamente o aniversário do Rafael, que a Jinx, uma vez mais me surpreendeu ao cair no chão a espumar da boca e a tremer por todos os lados.


09
YOU MAKE IT EASY
by Air




2008

Passado algum tempo os ataques da Jinx começaram a piorar. Eram mais frequentes e mais demorados. Estávamos todos aterrorizados. A Jinx começou a experimentar doses brutais de medicamentos recomendados pelos médicos para ver se conseguiam atenuar o seu estado. E todos os dias eram uma agonia porque nunca sabíamos quando é que ela iria ter um novo ataque. Passei a insistir com ela de que deveríamos estar mais tempo juntos, mas ela já tinha tomado uma atitude irreversível para comigo.
O tempo foi passando e a medicamentação parecia não fazer qualquer efeito. Os ataques repetiam-se e a Jinx começou a refugiar-se num mundo ao qual nenhum de nós conseguia compreender. Cinco meses depois Jinx reuniu-se connosco. Estava abatida, tinha a pele macilenta e as íris dos olhos pareciam dois fantasmas na sua cara.
— Vou-me embora — disse.
— Vais-te embora? Como assim? Não podes ir embora — Ripostei eu. — Não agora.
Ela abraçou-me com toda a sua força. Senti as suas lágrimas no meu pescoço. Ergui-lhe a cabeça e beijei-a demoradamente na boca pois sabia que aquele seria o nosso último momento juntos. Tudo tinha passado tão depressa. Num momento ela estava ali e no momento seguinte já se desprendia de toda a gente. E foi então que compreendi que a amava profundamente.
O resto do dia foi passado ao lado dela. Levei-a num carro que pedi emprestado ao Leboni até a casa de uma prima que ela tinha lá para os lados do Alentejo, numa terra perdida entre algumas oliveiras e ervas daninhas a alastrarem também elas como uma doença.
Fomos passear por um campo onde os amores-perfeitos cresciam aleatoriamente no meio das urtigas e onde o vento soprava baixinho como se estivesse a murmurar uma canção só para nós. O campo era uma imensidão assustadoramente desolada de terra, mas quando olhei para Jinx, pareceu-me vê-la mais contente do que alguma vez a vira.


10
THE TRICK IS TO KEEP BREATHING
by Garbage




2009

Os momentos passados no cemitério do Alto de São João não foram menos penosos. Os pais da Jinx choraram agarrados ao caixão da filha como duas lapas gigantescas, enquanto todos nós assistíamos à tragédia impotentes para fazer alguma coisa.
Mais tarde foi depositada sobre o caixão uma magnífica coroa repleta de rosas e de mais umas não sei quantas flores que eu desconhecia. Por ultimo um par de homens começou a espalhar pequenas pazadas de terra sobre o caixão. Um silêncio enorme gerou-se à nossa volta quando a terra voltou a ficar em paz. Surpreendeu-me o facto de não ver a Rute a cirandar por ali.
No pequeno café onde fomos a seguir, nas redondezas do cemitério, um buraco escuro e malcheiroso, acerquei-me de Rafael e perguntei-lhe:
— O que é que aconteceu à Rute?
— Estava mal disposta e resolveu voltar para casa.
Não quis saber de mais nada. Aquela já não era a minha vida. Só me apetecia era mesmo ir-me embora e desejar a todos que fossem o mais felizes possíveis. Mas não consegui. Não podia voltar a abandoná-los. O truque teria de ser outro.
Mais tarde, quando o cheiro daquele buraco começava a tornar-se insuportável, o Jerónimo apareceu com o seu velhinho Renault Clio vermelho, o mesmo que nos tinha levado a mim e à Jinx ao Alentejo à um ano atrás. Decidimos depois ir até casa do Rafael ouvir uns discos e beber mais uma quantas bejecas.
Os bons velhos tempos estavam a voltar, pensei, enquanto seguíamos a Morais Soares abaixo, entalados no interior daquela carripana que chiava estrondosamente a cada guinada do volante. E depois pensei em como as coisas podem mudar drasticamente de um momento para o outro e que as consequências podem ser graves se não estivermos atentos a elas.
E enquanto passávamos por aquelas ruas que me pareciam já tão distantes da minha vida, fui tomando consciência que íamos todos envelhecendo aos poucos, mas que, afinal, ainda poderia haver esperança e não deixar morrer um sonho que nos enchia por completo.
Já em casa do Rafael, enquanto o leitor de CD’s mastigava uma canção dos Stereo Total, resolvi tomar a palavra, assim, de chofre:
— Penso que deveríamos continuar o trabalho dos Sexy Boys.


11
STONED
by Dido




2007

A Jinx cortou uma fatia de quiche e introduziu-ma na boca juntamente com todos os seus dedos. Eu lambi-os até lhe sugar toda a gordura que escorria das mãos. Ela soltou uma gargalhada, envolveu-me a cintura com as pernas e tocou-me com as mãos no pénis.
Puxei uma passa do charro e o fumo azul ficou a pairar sobre as nossas cabeças como uma auréola de luz. Cheguei-me mais a ela e passei com a língua pela curva do pescoço. Ela soltou uma risadinha, encolheu-se um pouco, tornou a soltar outra risadinha e deixou-se cair para trás, os cabelos espalhados pela cama.
Debrucei-me sobre ela, o meu pénis rondando os lábios da vagina dela. Chupei-lhe os bicos dos seios, primeiro, depois o umbigo, a barriga e então senti-lhe a humidade do sexo.
Os nossos corações pulsavam energicamente ao fim de um bocado. Vim-me dentro dela em espasmos gritantes enquanto ela me prendia com os braços. Acendemos mais um charro e fumámo-lo em silêncio, sem preocupações, sem remorsos e sem angústias. De cabeças completamente livres de quaisquer dúvidas.
Quando adormecemos por fim, enrolados um no outro, e o barulho ensurdecedor da rua entrava pela janela aberta do quarto, apenas uma canção me enchia a cabeça e para sempre ficaria gravada na minha memória como um fóssil indestrutível.
A canção chegava-me de muito longe, como se o António Variações me sussurrasse, aos ouvidos, um futuro que, subvertidamente, se aproximava de nós, sorrateiro e intratável. Pouco depois nada mais ouvia senão um zumbido à minha volta: uma erva daninha a alastrar-se.


12
DANCE… DANCE… DANCE…
by Lykke Li




2009

Àquela hora do dia já a luz atravessava as persianas da janela e principiava a incidir sobre alguns dos instrumentos que ali estavam espalhados. Era como se recuasse dois anos atrás e abandonasse, de novo, tudo aquilo que os meus pais queriam para mim, para que eu pudesse abraçar uma carreira praticamente insegura, segundo eles.
Peguei na guitarra que jazia encostada à parede e não soube o que lhe fazer. Há dois anos que me dedicava a uma vida insensata atrás de uma secretária a introduzir dados num computador sem saber muito bem para o que é que aquilo servia.
O Rafael apareceu pouco depois com duas latas de cerveja a pingarem humidade na alcatifa. Abriu uma e deu-ma. Depois sentou-se atrás da bateria e sorveu um grande golo da sua cerveja. Pegou nas baquetas e começou a improvisar.
Foi uma questão de segundos. Pouco depois apareciam o Leboni, o Jerónimo e o Blacky que estavam na sala ao lado a conversarem. Cada um pegou no seu instrumento e, muito lentamente, começou a fazer-se música naquele quarto de quatro paredes descarnadas. Eu demorei um pouco mais até conseguir tocar nas cordas da guitarra e fazer com que os dedos deslizassem por ela sem qualquer receio.
Ao fim de um bom bocado, estávamos já todos concentrados e envolvidos numa jam meio electro-jazz meio bossa-nova. Contudo e, quando parecia que os fantasmas haviam desaparecido de vez, ninguém se atrevia ainda a cantar. Estávamos todos recolhidos a um ensimesmamento silencioso, como se buscássemos alguma verdade espiritual para lá da música.
Ainda não estávamos a dançar, é certo, mas parecia que afinal ainda podia haver esperança para nós. Para todos nós. Até para Jinx que, acreditava eu, estaria também àquela hora provavelmente a preparar-se para dançar connosco.


Sobreda da Caparica
2009

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